Falando daqueles problemas todos, daqueles defeitos todos, daquelas coisas todas que ela odiava. Não, ela não perguntou nada a ele, mas pra que ? Ele não diria mesmo, pra ela era tudo muito simples, ela diria, ele escutaria e ficaria tudo bem, ou não, eles brigariam mas no fim tudo ia acabar bem, algumas das poucas discussões foram assim. Algumas das poucas ? Talvez... Aquela. A única, tenha sido assim. Isso deu pra ela uma segurança,a de que ele a escutaria calado, mas afinal esse era o jeito dele, não é ??
Ela continuava falando e falando e falando, em um dado momento, em uma dada frase, que nem ela soube qual era, mas uma dessas frases pesadas,
como: "você não é pra mim", ou "você não merece o que faço pra você" , ele se levantou, olhou bem pra ela, enquanto ela falava, ela parou de falar e estranhou a reação dele, ela sabia que algo iria fugir do seu controle, algo que estava pra acontecer que ela não teria previsto, ela se deu conta de que era péssima em improviso, improvisar nunca teria sido a área dela. Enquanto ela se calava e olhava pra ele, ele deu as costas, estava saindo, ela pensou em algo pra dizer, ela sabia que ser espontânea seria a melhor coisa, ela queria dizer ''fica comigo'', ela tentou dizer ''eu preciso de você'', mas a única coisa que conseguiu dizer foi :
-Então é assim ? Você vai fugir mais uma vez? Vai fugir dos seus problemas e dar as costas pra ele sem nem tentar resolver ?
Nessa altura ele já nem sabia por que era mesmo aquela discussão, ele já não sabia o que teria deixado de fazer, ele não sabia o porquê daquilo tudo, mas sabia que era uma tempestade em cima de um copo d'água, sabia que era o exagero dela entrando em cena mais uma vez, e pra ser sincera ela também não sabia o porquê daquilo tudo,
talvez seria o silêncio dele irritando-a mais uma vez, talvez seria ela tentando levar tudo da maneira dele e jogando a culpa das incapacidades dela em algo que ele tenha feito. A verdade é que estavam os dois ali, perdidos no meio de uma tempestade,
sem saber o que dizer ou o que fazer e isso os deixava amedrontados.
Ela continuava falando, ele se virou pra ela, esperou ela falar tudo que tinha pra dizer e isso foi tão rápido quanto almoço de domingo, foi tão rápido quanto se parece ser esperar um sermão na secretaria da escola, pareceu tão rápido pra ele quanto pareceu na noite anterior em que ele esperou-a chegar ao orgasmo para então poder ejacular. Quando ela terminou, ele estava cansado, cansado daquela vida, daqueles planos, daquela segunda briguinha, ele temeu ser assim sempre, ele temeu jogar todos os planos pro alto...
Ela continuou falando:
-Você está pensando que depois que sair daquela porta vai me ligar e vai ficar tudo bem ?
Ele rompeu seu silêncio, e o casulo também, seu costume de ficar calado, talvez aquilo fosse um ritual só dele, talvez fosse o jeito que ele achou pra se proteger,
talvez fosse aquele o maior escudo dele, que ela rompeu agora, e ele mais parecia um bicho acuado.
- Eu to saindo
- Quando você voltar tudo vai estar diferente
- Quem disse que eu estou pensando em voltar. Talvez eu não volte mesmo.
E Ele saiu, bicho acuado sempre parte pro ataque.
Ela se sentou e ficou ali onde ele estava,
depois resolveu ir deitar-se, sentir o cheiro dele talvez, dormir agarrada ao travesseiro e esperar. Esperar que talvez ele ligasse, esperar que talvez ele resolvesse voltar e afinal se aquilo tudo era amor o que mais importava ?
O que importavam as brigas, as discussões,as noites perdidas, os sonhos destroçados,
de que importava o resto se o que sentiam um pelo outro era maior que todas as dores e dilacerações causadas pelas palavras ? De que importava o resto, que importava todo aquele sentimento, ou ressentimento, se o motivo pelo qual estavam juntos era o Amor ?

Obs: E o engraçado, é que a graça disso tudo, só eu vou saber.