domingo, 22 de novembro de 2009

Sobre Existir Saudade

Então diz vai, que eu tenho prazer em ouvir. Supor é um campo muito vago pra mim, meu bem. Então diz, é tão simples, diz que sentiu falta, que sentiu falta das minhas unhas vermelhas cravadas nas suas costas, diz que sentiu falta dos suspiros que eu te fazia dar quando passava meus dedos de leve na sua nuca, ou quando passava pela casa só de calcinha indiferente às suas reações, ou que sentiu falta de quando eu roçava meu pé frio na sua perna durante a madrugada. Mas diz, diz porque eu preciso ouvir você dizer que sentiu falta das minhas gargalhadas cretinas nas horas mais impróprias, ou pelos seus tropeções, ou pelas suas palavras erradas. Diz que sentiu falta da minha mão subindo a sua perna por debaixo da mesa, deixo até dizer que sentiu saudade da sensação de caminhar de mãos dadas só pra reparar o olhar invejoso de quem observava você me segurando firme, como se eu pudesse escapar a qualquer momento, e eu podia. Pode dizer, diz que sentiu falta de eu corrigir como você come, como você bebe, como você anda, e se veste.
Diz que sentiu falta da minha mania idiota de te escrever recadinhos em guardanapos de sinuca, karaokê ou de um boteco qualquer, que ria sozinho ao se lembrar das minhas imitações dançantes na sala de estar em plena madrugada, que sentiu falta das minhas roupas espalhadas pela casa e dos meus cremes no banheiro. Diz que sentiu falta do meu cheiro e cheirou todos os dias aquela peça de roupa que eu esqueci em sua casa, mesmo sabendo que ela perdeu o meu cheiro depois da segunda semana. Diz que me imaginou rindo de cada piada nova que você aprendia, me desejou em cada lugar que conhecia e me lembrou em cada lugar que freqüentávamos. Que sentiu falta do meu beijo, do meu toque, do conjunto sacana de olhar e sorrir insinuosamente.
Diz, por favor que sentiu falta de alguém pra chamar de minha namorada, diz que sentiu saudade de me olhar de cima à baixo, de lado e do avesso, diz que sentiu saudade de ficar a sós comigo, naquela cama apertada, de adormecer nos meus braços enquanto eu te fazia carinho, diz, que sentiu saudade de chegar quase amanhecendo em casa porque eu ocupava você até tarde, diz que sou a sua mulher, a única, a primeira, diz que sentiu saudade de acender meus cigarros e de sentiu meu gosto nele, diz que sentiu falta do meu gosto mais íntimo na sua boa, diz que sentiu falta do meu cheiro e do meu cabelo e do meu toque, diz que eu faço uma falta absurda na sua vida e que sem mim ela desanda.
Então diz, por favor, diz. É que amor deixa saudade e se não tem saudade você sabe.. não existe mais amor.


Obs: Aceito sujestões, críticas e elogios. [ Bom, na verdade, ultimamente, necessito deles. ] Então, fiquem a vontade.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sobre Evitar Despedidas

Eu corri pra alcançar o taxi, eu corri. E acabei fazendo um tchau de despedida sem você ver, eu acabei vendo você dentro do taxi chorando de cabeça baixa como eu não queria ver. Sempre achei piegas despedidas e choro em rodoviária, aquelas pessoas tornando público seus sentimentos, lágrimas, tristezas, coisa de 3º mundo, não se vê igual nos EUA, bando de frescos, eu sei, frescura minha? Não, Máscara pra esconder o meu medo! Não queria te ver partir, tenho medo de você não voltar e a única coisa que eu lembrar ser você partindo num ônibus nacional verde e amarelo me dando tchau enquanto choramos complacentes. Coisa idiota nos esconder atrás de mentiras, mas é que se eu te contasse o meu medo você me contaria a maior de todas as mentiras ‘eu nunca vou te deixar’, um desses atenuantes lugar-comum que eu sempre gostei de evitar.

- Eu to pronto, a mala também.

Eu quis chorar, quis pedir que ficasse mais um dia e fazer aquele drama que toda namorada sabe fazer. Mas pra que? Você tinha mesmo negócios pra fazer, não podia ficar então eu não pedi.

Eu: - Eu queria que pudéssemos passar mais tempo juntos daqui pra frente. Eu sinto sua falta!

Eu olho pra você, pra não olhar pra sua mala e é engraçado como aos poucos parece que, tão simultaneamente, descem as primeiras lágrimas dos nossos rostos. Eu não gosto de chorar com você aqui, você sabe. Pra mim, chorar de saudade é coisa pra se fazer ao telefone. Todos os meus momentos com você têm que ser alegres, porque quando estou com você é tudo tão perfeito.

Ele: - Eu chamei o taxi, se não eu perco o ônibus.
Eu: - Eu ainda tenho tanta coisa pra falar. Ainda tenho cinco minutos com você, não é?

E acaba sendo engraçado o quanto esses cinco minutos são tão preciosos pelo tanto de cinco minutos que desperdiçamos, hora a hora, dia a dia, mês a mês. E eu que sempre acreditei muito em TOQUE só sei ficar perto de você esses ‘os mais valiosos cinco minutos de cada mês’. E Esses são os cinco minutos mais perigosos na vida de um ser, é quando se diz grandiloqüências com absurda facilidade (coisas como Sempre, Nunca, Toda a minha vida, O maior de todos). Nesses 5 minutos tudo tem uma afetação maior que em qualquer outra situação.

Eu: - Eu adorei esses últimos dias, os meus dias com você são sempre melhores, e sempre fico lembrando depois de nós dois fazendo amor nessa poltrona que você adora, acabo fazendo dois cappuccinos sem perceber, enquanto da cozinha eu converso sozinha achando que você está na sala com as pantufas ridículas que eu comprei pra você usar e achando que por causa delas eu vou rir de você e você pra mim.

[Porque quando eu disse: “Você fingi tão bem que adorou as suas pantufas de coelho que combinam com as minhas de coelha fêmea que eu nunca vou saber se é só fingimento ou se você realmente gostou” Você balançou a cabeça dizendo que não com o sorriso e eu continuo sem saber se é "não, eu não finjo meu bem" ou se é “não você não vai saber”]
-... Então eu volto pra sala com duas canecas na mão e acabo me encolhendo nessa poltrona enquanto o seu cappuccino esfria na mesinha do lado do telefone... E Eu queria dizer que eu sou a mulher mais feliz por ter você e que a saudade me corrói todos os dias e horas em que você não está e que não há no mundo alguém que te ame mais do que eu. Saudade já. Eu te amo.

E é claro que eu custei a dizer tudo isso afinal não é um exercício fácil falar, chorar, fumar e respirar ao mesmo tempo. Você repetiu as juras, você é tão lindo.
O taxi buzina.

Eu: - A gente pode fingir que vai se ver amanhã, como sempre?
Ele: -Claro, até amanhã.
Eu: -Quer que eu te leve até a porta?
Ele: -Não fique deitada, amanhã de acordo com um monte de beijinhos como você gosta.
Eu: -Tranque o portão, feche as janelas, apague a luz, e saiba que eu te amo [cantarolando].
Ele: - Eu amo você, muito.

Eu você saiu, eu ouvi o barulho da chave, mas me ative ao eu te amo, se você nunca voltasse... Seria o eu te amo que eu me lembraria, até conseguiria ouvir de novo. Eu não sentiria tanto a sua falta até a próxima vez, eu não sentiria tanto medo, tanta angústia. Mas sabe deu tudo errado, dessa vez quando olhei pra mesinha vi seu casaco e em milésimos de segundos pensei que havia avisado pra não esquecer, aquela velha frase do “eu disse, eu disse”. Com medo de que você sentisse frio, eu peguei e corri pra que eu pudesse te entregar. 7 segundos a menos, 7 segundos a mais, pra que eu alcançasse, pra que eu nem visse. Mas eu vi. E fico com a impressão de que aquela foi a minha despedida e despedida é pra quem sabe que não vai voltar.

Por isso essa carta, eu sei que combinamos que não seria possível nos ver mais de uma vez ao mês, mas hoje faz um frio insosso, e deu no jornal que fará a semana toda e a minha previsão pra essa semana inteira é ficar olhando a sua caneca que esfria do meu lado, enquanto choro como uma criança abraçada à sua blusa, encolhida nessa poltrona que você adora com as pantufas de coelho macho pra esquentar os pés.

Deveria ser proibido fazer frio na casa de quem não tem um amor presente, mas não é, infelizmente não é, e é em dias frios que a saudade é mais cruel, você sabe. Por isso essa carta, esse pedido de socorro, pra que venha, que venha logo, que nesse ano o frio chegou na primavera, e sem se quer dar chances pra minhas plantas florescerem.
E só há uma coisa pior que a saudade no frio, é pensar que a gente, por um acaso, um acaso que chega a rir na minha cara de tão debochado, o pior, é pensar que a gente, por acaso, teve mesmo uma despedida e despedida você sabe... É coisa pra quem sabe que não vai voltar.


Obs: Perdoem-me o sumiço.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Sobre uma amiga em Portugal.


Uberlândia, MG, Quinta Feira, 24 de setembro de 2009

Raíza Moraes

Oi. Queria começar dizendo que desejo que você seja imensamente feliz. Que fico daqui imaginando você sendo feliz no meio de um campo de flores, ou um jardim, imenso, desses que a gente se perde no meio de girassóis ou de qualquer outra flor que seja grande e alta.

Tanta coisa aconteceu, o tempo passou tão rápido. Seis anos e a vida desaguou nisso. As oportunidades e possibilidades são tão grandes que parece que a gente desaguou no mar. E eu adoro o mar. E você adora a vento da pedra mais alta na beira do mar.

Tenho medo da vida, tenho medo de viver às vezes. Ir perdendo as pessoas por esses caminhos tão largos que a gente passa. Você mais do que eu sabe como é perder, não deveria querer perder mais nada e é só por esse teu medo de perder que ainda temos esse carinho uma pela outra. Você não pensa que quando sentir saudade, um dia, daqui a dois anos, poderá me ligar, poderá me encontrar, poderá ir atrás de caminhos pra que nossas vidas se cruzem de novo mesmo que por um instante, você sabe que não é assim. Mas eu também sei. Por isso essa carta.

Queria tanto estar mais presente na tua vida, queria isso mesmo antes de você se mudar de bairro, de cidade, de estado, de país, mas o meu ego sempre me trai. Meu orgulho sempre me trai.

Não temos mais trocadilhos, não temos tempo reservado no dia-a-dia uma pra outra e não temos mais piada interna, não vê? Não vê como foi diferente aquele dia, depois de tantos meses, se ver se torna diferente, se torna um botar de conversas em dia, se torna um relembrar de momentos distantes e felizes. Tão decadente.

Eu sempre fui utópica, queria uma amizade pra sempre, mas nós sabemos que não é assim. Que é que nem jardim como diria meu bom e velho Caio Fernando. Mas acho também que você e eu temos um pouco da euforia daquela nossa velha amiga. Nós também não sabemos lidar com amizades velhas e novas, já pensou nisso?

Já tive várias amigas, mas nenhuma delas me ligava pra poder vir na minha casa ver filme e comer pipoca, sair e dormir aqui em casa. Não perca esse teu jeito. Nenhuma das minhas amigas foi como você. Claro, cada um é único e coisas do tipo.

Eu queria ter estado na festa de despedida, ter te dado um abraço, ter escrito meu nome em uma camiseta, em um caderno, em algumacoisaquefossepralevardelembraça, eu queria ter gravado um vídeo ensandecida e bêbada num dos seus últimos dias no Brasil. Mas isso não é um pedido de desculpas, afinal, haviam circunstancias que me impediam disso.

Nunca achei que teria uma amiga viajando pra outro país, mas nesses últimos dois anos acreditava fielmente na tua capacidade de chegar tão longe... Você gosta de voar e isso é o que há de mais bonito em você.

Não quero me estender, cartas são pra dizer coisas importantes e geralmente coisas importantes são pesadas demais e pequenas demais quando passadas para o papel. Mas ainda queria dizer tanta coisa...

Moça branca como a neve* não se perca, estude, cumpra seus propósitos e fique enlouquecida nas noites em que sentir saudade, fique bêbada, que tenha um ombro pra chorar as faltas que sentir, que tenha sempre um amigo por perto, se não algum amigo, que tenha ouvidos sempre por perto. Eu vou ficar daqui imaginando aquele campo de flores, ou um jardim, imenso, desses que a gente se perde no meio de girassóis ou de qualquer outra flor amarela ou vermelha, que seja grande e alta e você no meio se perdendo e sendo feliz.

“Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.”[C.F.]

Eu te amo. Sinto saudade.
Um grande beijo.
Adrielly Soares.



Obs: *Cantiga Pra Não Morrer – Ferreira Gullar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sobre Corações.

De nada vai adiantar as declarações que eu fiz, de nada vai adiantar com quem eu briguei, com quem não fiquei, a que tentações eu resisti, a que lugares eu evitei ir pra não causar brigas, nada vai adiantar não é? Nada vai adiantar a saudade que deixou o tempo que passamos uma do lado da outra, nada vai adiantar ter gritado no meio daquela multidão o meu amor por uma pessoa do mesmo sexo sem me incomodar com a retaliação do pensamento e das ações alheias.

Um dia ainda aprendo que não importa o que eu fizer POR você isso será sempre menor do que o que eu fizer PRA você. Não adianta falar vinte e cinco vezes o quão você é inteligente se um dia quando eu brigar com você eu te chamar de ignorante. Ah já me ensinaram que as mágoas são sempre mais importantes que os amores, mas eu fiz questão de não aprender... Quando essa lição era passada na escola da vida eu matava aula, sempre achei muito entediante guardar rancor ao invés de amores.

O que você vai ganhar com isso? Um coração solitário escuro e podre no fim das contas, porque ninguém se dispõe a cuidar de um coração podre, isso eu te digo, ninguém gosta de pegar corações com uma carga demasiada grande de sofrimentos, capotes e acidentes.

“É parece estranho, quando mais frágil um coração mais ele é solitário!”, você diz, “não”; eu digo, os corações escuros e podres não tem nada de frágil, são os que mais aprendem a revidar, a magoar, a ferir, parece que estão sempre rodeados de arames farpados e cercas elétricas que se acionam no menor sinal de aproximação alheia.

E você diz que eu falo o que me convém, e você diz que eu faço o que me convém, você diz que eu só penso em mim, você diz que eu não penso em nós duas. Eu, logo eu, que fiz questão de afastar de nós duas, afastar da nossa frágil fortaleza, qualquer vento, qualquer brisa, qualquer maré que pudesse nos destruir, eu que fui me afastando das grandes paixões platônicas, que fui limitando lugares e pessoas as quais eu podia sair.

Quando você dizia “a gente é muito diferente” isso sempre soou como um desafio pra mim, não, desafio não, isso soava como um motivo de orgulho pra mim, porque enfim depois de tantas diferenças estávamos nos dando bem, estávamos levando a diante, passando por cima não é assim como se diz? Mas da última vez em que você disse “mais uma grande diferença” isso soou como um empecilho, me pareceu que éramos duas tolas lutando por nossos caprichos tentando passar por cima da maior semelhança; a do sexo, e das maiores diferenças; de personalidade.

E eu que nunca quis admitir que nós fossemos como água e óleo, eu que sempre achei que nosso destino seria diferente, seria especial, você já se pegou pensando quantos namorados já não pensaram que a história deles era especial? Qual a chance de uma história ser especial? Uma em um milhão? Qual a chance de saber que somos especiais?

É meu amor, as coisas vão acontecendo de maneira inesperada e a gente se assusta com cada novo capítulo dessa história. E eu que vivo repetindo se amor é suficiente só pra que você me diga sempre a mesma resposta, “claro que amor é suficiente, amor é tudo.”. Porque é que você não usa esse amor pra passar por cima das coisas que acontecem? Eu não entendo você meu amor.

Afinal essa é só mais uma grande diferença não é? Só quero que saiba que o meu coração não é preto, não é podre, portanto não é, não será, nunca, um coração solitário, mas o seu se ficar carregando essas mágoas ficará... Ficará sim, meu amor. Tome cuidado. Não quero ver você uma pessoa solitária e triste. Releve as besteiras ditas e feitas porque eu prometo te fazer feliz até o fim dos dias. Seremos somente dois corações vivos e pulsantes, reluzindo mais que todos os outros a nossa volta.


Obs: chega logo primavera, minha melhor estação. *-*

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sobre Meme.

Felipe...

Acho que nunca havia reparado em como a sua aura é calma. Jogado assim nu, em cima da sua cama. Você me lembra os melhores filmes de paixões catastróficas à la Daniel Cliver. Cara, e como você é bonito enquanto dorme? E Eu não tinha reparado em como eu fico sexy nas suas camisas.

Hoje, quando acordar, faça uma panqueca, uma só, eu não fui fazer caminhada, nem Cooper, nem dar satisfações a minha governanta, ou pegar mais grana do meu marido no banco. É que ele chega hoje de viagem e eu fui embora, de vez, entende? Não vou voltar pra tomar café da manhã, ou pro sexo matinal, ou na semana que vem, de verdade.

Você lembra quando eu te disse sobre as sessões de terapia? Você disse que era besteira, claro, meninos da sua idade pensam que podem confiar em Deus e o mundo. Na minha idade só se acredita em padre ou terapeuta, porque nunca os dois juntos. Numa dessas sessões eu falei sobre você e eu me senti tão ridícula. Socialite-cinquentona traindo o marido-rico com um garotinho-da-academia-trinta-anos-mais-novo. Como soa pra você? Não ri, não ri, não. Pra mim, soou péssimo.

Você é lindo, trepa maravilhosamente bem, é todo durinho, fala de sacanagem como ninguém, primeiro carro, futuro traçado, cursando faculdade, herdeiro de grande empresa, sem filhos, sem plástica.. Quem me dera tivesse conhecido alguém como você quando mais nova.

Desde que te conheci tinha em mente que eu não era mais uma menina de 16 anos traindo o namorado, sempre me pus no lugar certo na sua e na minha vida, claro. Você não vai casar comigo, nem querer uma cinquentona como namorada, você não vai fugir comigo, eu não vou deixar minha segurança por você, não é materialismo cara, até porque você é herdeiro de toda aquela empresa, a questão é que é uma vida toda de companheirismo, sou o que sou por ele, e ele é o que é por mim, vinte e cinco anos de casamento, você podia ser meu filho, aliás, o meu filho tem a sua idade, podia ser teu amigo..

Depois de você virão outros meninos-da-academia, ou da auto-escola, ou do shopping, ou os próprios amiguinhos do meu filho, porque não? Mas não tenha ciúme, não mais, porque agora eu já fui embora, não vou voltar, mas saiba que embora não tenha sido o primeiro garoto com quem saí, foi o único que passou de três encontros, é claro, você foi o melhor. Eu to sendo sincera, meu garoto. Não falo só de sexo, você me entende?

Não venha atrás de mim, como das outras vezes, e pra facilitar, vou mudar a academia, e não vou passar mais aqui por perto, mas se me vir pela janela, não desça, não grite, me deixa só olhar você, como você costuma ficar olhando por ela, olhando ao longe pro edifício daquela empresa e dizendo: ‘um dia chego lá, você vai ver, vou comandar aquilo tudo’. Eu acredito muito em você, independente do que o sacana do teu pai diga.

Sei que você gosta de mim, é diferente de todos os outros que eu comprei com o dinheiro do meu marido-sempre-ausente, você eu comprei com meus beijos, minhas lambidas, meu caráter duvidoso, minhas risadas, minha personalidade e meu charme de mulher-de-meia-idade-carente-que-trai-o-marido. A cada vez que penso nisso me soa mais ridículo. Eu amo você mesmo que nunca tenha te dito, assim como você me ama, como sempre diz, me faz sentir tão bem saber que ainda tenho o poder de conquistar um homem, saber que eu não preciso pagar pra que saiam comigo. Você me faz sentir tão independente, tão jovem e se sentir jovem na minha idade é um perigo, meu garoto, porque é aí que as mulheres começam a querer esconder as marcas da idade, o que eu nunca aceitei.

Esse mês que passei com você não se compara em nada com esses 25 anos de casamento. Mas acabou. Eu amo você, como a paixão mais juvenil que nunca senti, e é por isso que tenho que ir embora. Você me perturba e eu não aceito nada que possa me perturbar, mesmo que seja você, meu garoto. Mas confesso que ainda não sei como vou sair porta a fora, sem voltar.

Não sofra, tudo que nós vivemos foi lindo, mas, ainda assim, foi errado, entende? Não que eu esteja arrependida, nunca, mas eu sou casada. Eu sou uma fodida que encontrou o amor aos cinqüenta anos em um caso extraconjugal com um menino de vinte e dois anos.

Eu sentia sua falta antes de você chegar à minha vida e vou sentir falta quando se for. Eu tinha tanto medo de nunca viver um amor, cara. Mas por só ter encontrado você agora, perdi meu instinto de arriscar tudo por amor, aquela coisa que a gente nasce com ela, mas se não exercitada a gente perde. É como a coragem que a gente tem de saltar de pára-quedas quando é novo, eu não saltei e com a idade adquiri medo de saltar, de pular, de me arriscar. Me perdoe a covardia.

Você vai achar alguém que mereça você, uma menina linda e da sua idade, quem sabe na faculdade? Quem sabe no supermercado? Quem sabe na academia? Só não procure, não se acha nada quando se procura. Continue cuidado do seu lindo corpo, do seu lindo intelecto, cuide do seu inglês, faça nossa viagem pela Europa, pense em mim quando conhecer cada lugar que te contei, aquela sorveteria em paris, aquele brechó na frança. Cuide do seu coração, da sua casa, da sua herança, estude, cresça, e mostre pra todos a força e astúcia, que só eu vejo em você. Cuide da vida. E cuide também da cadelinha.
Enfim, cuide de você.
Eu amo você.
I miss you, since always, for ever.
Renata Vasconcelos.

Esta carta que escrevi faz parte de um meme proposto por Daniele Vieira. Foi proposto que os indicados fizessem uma carta como se rompesse com um certo alguém. A idéia da minha querida amiga escritora foi inspirada na exposição Cuide de Você, da francesa Sophie Calle, que convidou 104 mulheres para interpretarem um e-mail de seu ex-namorado que gostaria de romper o relacionamento de ambos. As regras do meme são as seguintes:

1.: Escrever uma carta como se você estivesse rompendo com o seu (sua) namorado(a);
2.: Escrever estas regras e uma breve explicação do que é o meme (como a que fiz acima);
3.: Indicar cinco pessoas.

São elas: Insolente, Fernanda [xuxu] , Carolina Cadima, Spleen rosa-chumbo, Alan
As cinco pessoas citadas acima, não tem obrigação nenhuma de fazer o que foi proposto, mas escolhi-as porque eu realmente gostaria muito de ver essa carta escrita por elas.


Obs: Ao contrário do que parece, escrevo cada vez menos.

sábado, 15 de agosto de 2009

Sobre Términos.

'' ela vai mudar, vai gostar de
coisas que ele nunca imaginou.''
Mesmo Que Mude - Bidê ou Balde.


Ela mudou o cabelo, mudou a cor, o tamanho, mudou o penteado. Mudou o esmalte preferido, agora ela só usa cores fortes, roxo, vermelho, laranja, não quer mais ser puritana, a noivinha, a namoradinha que usava renda, só usa grená. Mudou os horários, agora ela trabalha a noite, numa boate, pra receber cantadas. É um método eficaz pra levantar sua auto-estima. Mudou o que comia agora ela é vegetariana querendo se promover à vegan, só come carne de soja, cortou o ovo, tentando cortar o leite mas ela adora pão no café da manhã. Vive dizendo que não toma mais coca-cola porque ela é anti o imperialismo e ela agora diz que coca é o maior símbolo do imperialismo norte americano... mas quando se tranca no quarto ela toma uma duas latinhas e depois coloca as latinhas de refrigerante na mochila pra jogar fora no caminho de algum lugar. Mudou de curso, que nada de inglês, agora ela quer espanhol, fazer casas solidárias no Chile, na Bolívia, quem sabe entrar pra engenharia pra poder ajudar mais? Ou quem sabe fazer medicina pra ir ajudar em comboios de médios no Irã, Iraque, Oriente Médio em si. Mudou o lugar preferido no cinema, agora ela gosta de ficar do lado esquerdo, em cima, acha que é mais aconchegante. Mudou a fruta preferida, não é mais a laranja que ele com gosto fazia suco pra ela, nada de caixinha, suco com gominhos, sem açúcar, com um pouco de gelo, por favor, ela pedia... Agora ela gosta de cerejas, cerejas com Martini. Voltou a beber, passou a fumar, usar preto, usar saias curtas, nada de calças jeans, nada de camisetas, ela gosta mesmo é de regatas, decotes, boleros, nunca gostou de boleros, agora gosto. Nunca gostou de forró, agora dança, faz aula de dança de salão, inclusive. Adora gafieiras, parou de ir aos shows de MPB. Ela mudou tudo que podia mudar, por fora ela nada mais é agora do que o reflexo de uma desilusão amorosa, por dentro ela toda dor, toda podridão, toda escuridão, o coração se partiu e apodreceu ali dentro, ali mesmo. E como aquela flor que suga o podre pra florir lindas flores, ela usa a energia do coração que pulsa mais forte e negro, podre e aos cacos, pra viver, pra mudar, para experimentar, pra sorrir, mesmo que só por fora. Porque a dor sempre nos mostra toda vivacidade das coisas.


Obs: Boa Semana, minha gente.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Sobre Cartas

Bombinhas SC, Terça-Feira, 21 de Julho de 2009

Hello Stranger...

Te escrevo com tantas finalidades que nem devo enumerá-las, mas basicamente quero dizer-te como estou e te pedir desculpa.
Estou em uma casa de família como já deve saber, acho que contei isso no último recado que deixei em sua caixa postal. É como uma pensão. A senhora Silva aluga quartos e em uma época de baixa temporada essa cidade até se parece com um lugar normal. Se parece até uma cidade habitável. As roupas estão lavadas e passadas pela dona da pensão, a comida e a cama são feitas também pela Sr Silva. Ainda quero te trazer aqui. Isso se você ainda me quiser.

Escrevo pra dizer porque saí tão logo de Ribeirão Preto, escrevo porque sei que se eu disser todos os motivos você irá entender um recado tão seco em cima da mesa de centro e minha ausência na sua cama, sua casa, seu guarda-roupa e sua vida. Sim, a casa ainda é só sua, depois de três meses com você nessa casa, acordando e dormindo do seu lado, ocupando espaço com as minhas roupas e coisas, e ajudando nas tarefas de casa, ainda sinto que essa casa não tem nada de meu, nada que me faça sentir parte dela, ainda me sinto morando de favor com uma tia. Por isso saí daí. Acreditava que todos tinham um lugar que era seu e que uma vez fora dele a saudade e o desconforto eram tanto que lugar nenhum lugar os caberia, acreditava que casa era o que nos dava segurança e conforto e felicidade e proteção e naturalidade de gestos. Acreditava que depois desse um mês morando com a Sra. Silva eu ia me sentir verdadeiramente em casa aí no bairro do Planalto Verde.

Queria te dizer que a comida é excelente e que eu me senti quase que fazendo parte da família, me tratam tão bem, me desejam bom dia, se interessam pela pacata vida de um jornalista da cidade grande. A Sra. Silva tem dois filhos, uma garota de seus 20 anos ainda decidindo o que vai ser, o que com prova aquela sua velha teoria que nas cidades pequenas as pessoas podem ser nada se assim o quiserem, basta realmente se casarem com um homem que tenha uma renda que se comparada ao que nós almejamos se chamaria lamentável.

A menina é linda, cabelos lisos e pretos no Chanel mais perfeito que já vi, deve ter ido à cidade vizinha cortar (resquícios do meu velho preconceito com cidades pequenas). Corpo escultural, digno de canções como garota de Ipanema, ‘olha que coisa mais linda, mais cheia de graça’, peitos pequenos, e bunda simétrica ao seu porte. Seduz um homem como ninguém, ela é a graciosidade desse lugar, os garotos daqui são assanhados por ela. Mas não se preocupe, ela não desperta o meu interesse.

O outro filho tem 15 anos, é ele o meu companheiro, fica deitado comigo na praia sobre uma toalha nas noites tão estreladas que fazem aqui. Você ia adorar o guri, é cheio de espinhas, alto, faz natação, tem um preparo físico de dar inveja e se prepara pra um dia ser bombeiro. A beleza é coisa freqüente na família, mas a inteligência e a vontade de crescer e aprender ficou só pra ele. Acho que por isso ele grudou em mim desde que cheguei. Quer saber de tudo, como é a redação, imparcialidades, direita esquerda, prometi um estágio pra ele aí. Ficamos filosofando sobre mulheres e relacionamentos o tempo em que ele não está me perguntando sobre as pessoas e coisas e profissões, impressionante o quanto já aprendi com ele.

Eu descobri que precisava mais do que eu sabia de sair daí, de mudar de ares, de mudar de rotina, de círculo de amizades, de convívio social por gentileza. Não sinto vontade de voltar, nem de trabalhar na redação, se eu pudesse ficaria o resto da vida assim, sabendo das notícias pelos jornais televisionados e impressos e sempre contando com a internet, escrevendo minhas colunas de um lugar bem longe do tumultuo que é conhecer o tumultuo dessa cidade. Acho que é por isso que gosto tanto de São Paulo, não me sinto parte daquela bagunça, não estou inserido naquele contexto por isso aquilo não me afeta, por isso só me encanta. Imagina se esses meninos aqui vissem a loucura que é São Paulo.
Eu só mudaria uma coisa aqui, eu traria você.

Vou te contar mais sobre a minha rotina aqui. Acordo às 5h (quando você imaginou me ver acordar à 5h?), leio o que escrevi antes de dormir, escrevo o que tenho que escrever, tomo meu café às 6h e vou correr... 5 km todos os dias, no começo não foi fácil, mas agora me acostumei. Paro no fim dos 5 km e fumo um cigarro tomando água de coco, depois volto passeando lá pelas 9h da manhã. Ficaria espantada ao ver tantos cachorros em um só lugar. A cidade é pequena e todo mundo que tem cachorro vem aqui pra praia passear com eles. Vi um Ruski Siberiano e acabei parando na frente dele, acredita? Acho que achei que você estava comigo e como de costume parei pra esperar você falar com o dono do cachorro pra procurar um parceiro pra doce Luna. Ela realmente já está na idade de conhecer os desprazeres de ser uma cadela fêmea. Sem prazer e ainda grávida.

Os Silva também tem um cachorro, um Doberman, lindo, manso, com o qual me identifiquei assim que cheguei por ter os mesmos olhos doces e pidões de Luna quando me olhou na vitrine do pet shop. Eu te dei ela pra que pudesse te acompanhar quando fosse dormir, já que ainda morávamos em casas diferentes. Te dei pra que pudesse te proteger quando eu não estava por perto e espero que ela esteja cuidando de você. A Luna é tão doce que não teve ciúmes de mim quando me mudei pra tua casa.
Aqui não me sinto mais preso, nem com dores no corpo, nem com vazio intelectual. Não sinto o meu coração esmagado pelo barulho das buzinas no transito, nem os meus olhos ardendo pelos dias vazios e nem o amargo da minha boca pela poeira que sai dos motores dos automóveis. Aqui a minha mãe não me liga, meu chefe não me irrita e minha sogra não diz que a filha dela merece alguém melhor (espero que a filha dela não a ouça, apesar de ela estar tão certa).
Sei que você entende como é que eu sentia, sei que vai entender o motivo da urgência da minha viagem, sei que vai entender o motivo de estar tão longe nas últimas três semanas e sei que vai entender aquele recado seco na mesinha de centro. Mas escrevo também para pedir-lhe desculpas. Sei o quanto já discutimos por isso e o quanto reconhecer os erros é importante pra você, pra nós.

Não pense que eu estava cansado de você ou que não sabia o quanto você é importante pra mim, ou que você não é capaz de me curar ou que você não é parte da minha cura, mas sair daí era uma parte essencial do meu processo, e um processo que é só meu, passar por tudo isso era uma necessidade só minha, passar por todo esse processo doloroso, porque sim dói, dói se reciclar, dói ficar longe de você, dói ter que ser recluso, dói aprender a olhar pra dentro, e por isso não te trouxe, por isso liguei sempre nos horários em que você não estava em casa. Acredito que o processo tenha chegado ao fim junto com o mês e em poucos dias estarei de volta a sua casa. Sim, insisto, a casa é sua, porque descobri que aquele meu lugar, do qual eu falei no começo da carta, que nos dá segurança e proteção, esse meu lugar é VOCÊ. Seja em Ribeirão Preto, em São Paulo ou em qualquer lugar que seja, eu só quero estar com você.

Preciso que saiba que pensei em você todos os momentos, que desejei você por todos os lugares, tanto que ás vezes até via você com seu vestido de babados, ou seu biquíni verde. Volto agora por estar mais maduro, mais descançado, mais feliz e curado.

Volto porque sei que hoje consigo ser melhor pra mim e pra você, porque sei que era tudo o que você queria; não ver mais eu me destruindo cada dia mais.

Volto porque a única coisa da qual senti falta foi você, com seus tons de lilás e grená, com sua oscilação entre dó e mi bemol, suas intempéries e suas particularidades.

Volto com a certeza de que me esperas ansiosa com o seu pijama rosa, ao lado da doce Luna, com duas xícaras de café.

Eu te amo, com toda saudade.
Do sempre, sempre seu
Renato Alvarês.


Obs: Nada de compactar textos, sorry. ;D