terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sobre Ser Toda Falta.

Instruções:
  • Só leia com paciência.
  • Só comente se tiver realmente lido.
  • Respire, prenda a respiração e lá vai.
Ela tinha que achar. Era seu e fazia tanta falta. Motivos suficientes para revirar a casa toda atrás de qualquer coisa por pequeno que fosse. Já havia tanta coisa sua que sentia falta, havia tanta coisa que sentia falta, que se acumulasse mais faltas seria ela inteira vazia, uma prateleira, como tantas aquelas que haviam em sua casa abarrotada de coisas, ela, no caso, abarrotada de faltas.

Claro que eram motivos suficientes esses, mas só pra justificar que ela levantasse às 3h da madrugada de um Sábado pra Domingo pra procurar um abajur de madeira antiga, de fios desencapados, e uma decoração de cabaré, vou lhe dizer os outros motivos... Era tarde e ela queria ler um livro em sua cama como era de costume na solteirice, mas não podia acender a luz que acordaria o seu marido. Esse também é um motivo que sozinho justificaria a toda a busca desesperada pelo abajur. Já te explico isso. Deixa eu primeiro te contar os motivos cumulativos: estava frio e não sairia da cama pra ler um livro, e por último porque o abajur ganhara da avó que fora puta nos anos 60, não, não é piada leitor, fora puta de verdade, num dos mais bem freqüentados cabarés de São Paulo. Na época saía com vários empresários estrangeiros, um até era fixo e lhe ensinou a falar francês (bonjour, sava bien?), saia também com os maiores plantadores de café da região e unzinhos que tinham dinheiro para pagar seu cachê de putacara. Por isso eu digo e repito o abajur (que, aliás, havia ganhado do francês, pura ironia, não? Abajur = abat-jour = Frances?) vinha de uma decoração de cabaré.

Não, não podia, não queria e não ia acender a luz branca do quarto, porque isso acordaria Felipe que tinha sonos mais leves que o de um bebê recém nascido. Isso era um saco, porque Débora tinha insônia freqüentemente e no outro dia tinha que ouvir comentários como “nossa amor, você dormiu essa noite?” ou “havia formigas no seu lado da cama, Débora?”, o que ela odiava. Além disso, Felipe ficava uma fera se o acordassem de madrugada e a relação deles andava tão instável que ela evitaria qualquer tipo de briga.

Porque na abarrotada prateleira de faltas dela, a falta maior, a que ocupava mais espaço na prateleira, que era ela, por incrível que pareça era a falta do homem que dorme todos os dias do lado dela. A falta dos carinhos dele, dos beijos dele, das palavras bonitas, de tudo que pra ela significava sinais de amor.

Então ela se levantou, com cuidado, ligou o som do MP3 baixinho, naquele cd de música que ele sempre escutava pra fazer yoga, pra tirar cochilos, pra esquecer as raivas de um dia estressante e foi procurar. Não estava pela casa ela sabia, mas sabia onde encontrar.

Quando Felipe se mudou pra morar com ela, ela encaixotou vários mimos seus, para que na casa houvesse espaço parar as coisas de Felipe. Para que ele não sentisse que não havia espaço pra ele, pras coisas dele. E jogou tudo na despensa, onde, vira e meche, ela tinha que procurar alguma coisa que lhe fazia falta.

Então, foi pra despensa, que se pudesse escolher seria seu lugar favorito da casa, o que tem mais coisa sua, o que tem mais a sua cara. Sabia que em alguma daquelas tantas caixas estaria dentro de alguma o abajur do francês.

Não se lembrava de ter deixado aquele banco lá, mas lá estava, subiu e começou a desempilhar as caixas, pegou a mais alta, pôs no chão, foi revirando entre as coisas que tinham lá dentro.
Ursos de pelúcia que ganhou durante o namoro com Felipe, cartas de amor, flores amassadas dentro de livros, vários corações, de todos os tamanhos, vermelhos, amarelos, verdes, pretoebranco, preto e branco, recortados de revistas, jornais e com dedicatórias daquela linda letra desenhada que nem parecia de homem, pingentes antigos, fotos, chaveiros, cinzeiros, isqueiros, batons, mascaras de carnaval.

Quanto mais caixas ela abria mais o passado ela revirava. Velhos carnavais, bolinha de bet, bolinha de ping-pong, bolinha de cachorro, bolinha de piercing, bico de criança, frascos de perfume, broches, bótons, terços, troféus, lenços, porta-retratos, agenda, caneca, diário. Era tanta coisa velha, tanta coisa que fazia parte dela ou que era ela por inteiro, que ela teve vontade de ficar ali, porque se sentiu velha e antiquada e antiga e ultrapassada e presa no tempo com/ como todas aquelas coisas encaixotadas e deixadas pra escanteio por ELE. Que nem era ELE mais, era só um cara com quem gozava quase todas as noites, um cara pra quem dava bom dia todas as manhãs, e as frases mais sinceras e carregadas de sentimento que se falavam eram: “tome cuidado”, “leve o guarda-chuva”, “você nunca faz/nunca sente/nunca vê”, “que se foda”, “quer transar?”.

Ficou ali por horas, e ela chorava. Eu não ia te contar que ela chorava. Ela não contaria pra ninguém. Mas acontece que chorava e as suas faltas abarrotadas doíam mais que machucados internos com pinos quando faz frio. Mas algumas faltas sumiam, como a dos retratos, como a do terço, como a dos bótons, como a da caneca, e essas faltas que sumiam deixavam ela mais vazia, porque afinal “perder vazio é empobrecer”. Justo ela que era somente falta, abarrotadamente cheia de faltas, perdia um pouco delas agora. O que não é justo. “Não é justo” pensou ela, e de pensar assim chorava mais e soluçava.

Já devia ter quase 3horas que olhava todas aquelas lembranças guardadas e quando já nem se lembrava do que estava procurando foi que o achou, empoeirado, mas ainda sim lindo, querido, estimado e sentada no banco abraçada ao abajur ela chorava.

Foi então que Felipe acordou. 06h30minh de um domingo. Tinha toda a tarde pra dormir, agora ele queria ir à feira, comprar frutas. Adorava chegar cedo à feira, pegava sempre as coisas mais frescas, as verduras mais bonitas, as frutas mais doces. Não trocava isso por nada, mesmo quando muitas vezes Débora lhe pedia pra dormir mais um pouco, ficar mais na cama com ele, não tinha negócio, ele tinha um prazer imenso de comprar na feira às 7h da manha. E ela como boa esposa o acompanhava.

Achou estranho não achá-la na cama, “ao menos um dia ela vai partilhar do meu hobbie sem me atrasar.”, pensava enquanto se encaminhava para o banheiro onde, jurava, ela estaria.
Não estava. Procurou-a pela casa toda e quando enfim a achou, ela estava em prantos e soluços abraçada a um abajur cafona de decoração de cabaré. Isso o afetou tanto. Desde a perda da gravidez, era isso o que mais o havia afetado. Ver ela no meio de tanta “quinquilharia” chorando cheia de coisas em volta. Ficou olhando por uns cinco minutos sentindo uma dor tão grande quanto a dela, pra só depois ir ao encontro dela.

Pisando em ovos pra não estragar essas coisas antigas ele a puxou pela mão, ela veio, mas com o abajur. Ele com cuidado a fazia soltar o abajur até que pudesse pô-lo em cima do banco que estava ao lado. Ele a abraçou com a mesma força que abraçou no dia em que a médica disse: “Foi um aborto espontâneo, o feto era pequenino e frágil, ele não sobreviveria, eu sinto muito”.

- Vem, vem deitar abraçada comigo. Vem chorar no meu ombro, eu cuido de você.

Ele a levou com cuidado para o quarto, sem soltar ela do seu braço, seu abraço apertado. Ele trocou o seu prazer dominical pra cuidar dela que agora o afetava e chorava no seu peito, deitada, abraçada a ele como há muito não ficava.
E ela trocou mais uma vez suas coisas por ELE, deixou tudo guardado, encaixotado para que ele ocupasse o espaço vazio.
Afinal, ele era seu, e fazia falta. E na prateleira abarrotada de faltas dela, a falta maior, a que doía mais, era a falta d”ELE. E isso... Isso era motivo suficiente.

.
Obs: Eu já disse que não prometo fazer textos menores, não é?

13 comentários:

Dara disse...

consegui visualizar direitinho o abajur. :)
e eu gostei bastante o texto.
quem não tem faltas essas faltas, não é?
às vezes é preciso se recolher.

beijocas!

Robin K disse...

Gostei muito.
De facto, quando sentimos verdadeiramenet falta de alguém, deixamos toda uma vida para trás, guardada na despensa, porque só a companhia dessa pessoa nos importa...
E quando essa companhia nos falta....falta-nos tudo. Apenas recordações guardadas na despensa.

Adoro ler o que vc escreve. Se calhar não entendo direito o que vc tem para dizer. Mas gosto e por isso leio vezes sem conta.

Layse disse...

Compensou mesmo ler todo o texto.. aliás.. sempre compensa! :) gostei mto da parte q ele se dá conta da tristeza dela, do vazio dela, e isso afeta ele. Foi muito bonito!!!

Insolente disse...

Eu vou comentar sem ler, mas vc vai me perdoar, até pq eu to louca pra ler e logo q puder vou fazer isso.
vai no insolente, tem presente pra vc
=)
bjos

Luiz Carlos disse...

Num li o texto ainda, mas vou lê-lo e volto a comentar!!

agora vim pra avisar q tem uma coisa pro c lah no meu blog!!

bjaum

. disse...

Incrível!
Como os detalhes se ausentam sem ao menos percebermos. e quando nos damos conta...ah, como nos dilacera.

talvez, a verdade deva ser empacotada, até as coisas mais bonitas.

consigo escutar uma valsa triste.

Paty :) disse...

com certea valeu a pena ler o texto. muito, mas muito interessante. vizualizei certinho a despensa, cheia de coisas , heeh e o abaijur

bsj ;*

Luiz Carlos disse...

Poxa, bom demais o texto!!!
gostei msm...

.micheelle disse...

Ah eu também to qrendo saber o nome da música!
Se eu decobrir eu flo pra tu!
Eu ouvi, achei legal e postei! ;D

E tá massa teu texto, muito boom!

- beijos!

Nina Vieira disse...

A gente tah sempre a procura de alguma coisa, de tudo aquilo q sentimos falta.
Tem um memezinho pra ti lah no blog.

Robin K disse...

Já tenho saudades de um novo texto.
Curto ou longo....
Mata minha sede de boa leitura.

Carol disse...

Ui...que pesado!

Sensibilidade a flor da pele, deu até pra sentir o sentimento de Débora...e doeu tanto! Acho que todo mundo tem alguns momentos de falta, algumas prateleiras vazias dentro de si, e uma despensa cheia das coisas que faltam...
Aiai...

Gabriela Galvão disse...

Me afetou.

Abraço.