quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre Mágoa e Vodka

.Acordou e se lembrava vagamente do que tinha acontecido noite passada. Renata se lembrava sim de ter tido uma discussão terrível com Ana, por telefone. O porquê da discussão também lembrava, o de sempre. TEMPO, essa palavra pequena que pode remeter-se a tanta coisa. Tempo, quando queria o tempo de Ana era assim que fazia; birra, pirraça, como uma criança mimada que não sabe como pedir o brinquedo que tanto lhe desperta atenção, criancice? Não! Só falta de jeito mesmo. Sem saber tinha todos os argumentos que precisava em suas mãos, para fazer de Ana o que quisesse, pra fazer de Ana uma ocupação do seu tempo livre também.
.Mas não sabia pedir, só bater o pé. E Ana não gosta de crianças mimadas, Ana gosta de adultos que sabem o que quer e sabem o que fazer para consegui-lo. O tempo. Ana andava tão comprometida com a monografia da conclusão da faculdade, e com a família, que o tempo que tinha ela queria pra se divertir, não queria ninguém a cobrando isso ou aquilo, mas o que Renata não entendia era como mostrar interesse sem o bater dos pés.
.Renata acordou, com aquela dor de cabeça, ouvindo barulhos que vinham do seu quarto, ainda sem coragem de abrir os olhos, tentou uma rápida constituição da noite passada, depois do fatídico telefonema que de lembrar fazia sua cabeça doer ainda mais. “O que veio mesmo depois do telefonema?”. Renata não desligara o telefone, disso lembrava, foi Ana, que desligou o telefone interrompendo qualquer reclamação ou assunto.
.Por isso tanta raiva? Por isso tanta vontade de magoá-la e de se magoar? Porque se magoando magoaria Ana que já era parte dela. Então continuou a lembrar: Tomou um banho, um longo e renovador banho, se vestiu e saiu. Seu corpo era de tamanha beleza que mesmo com jeans e regata estava bonita, nada precisava para realçar sua beleza, nada precisava para que notassem ela estar lá, apenas estar.
.Se lembrava de alguém, um cara que a fizera companhia a noite toda, Thadeu com TH era o nome dele, e era só o que se lembrara dele. Falaram sobre signos, sonhos sobrenome, bebidas, parentes, artes, galeria, filmes, acupuntura, sexo, trabalho, tempo, mas não se lembrava nada do que ele havia falado só que do que ela mesma dissera. Saíram da boate os dois, passaram em uma conveniência compraram uma vodka, foram para um bar. E a dor de cabeça, e os barulhos no quarto e não se lembrava da noite passada. E o sol batendo em seu rosto e a preguiça de acordar, e o medo de abrir os olhos e não ser Ana ao seu lado. Não era não seria, pois brigaram a noite passada.
.Então desejou enormemente ter tido um sonho ruim, como aqueles que a incomodavam volta e meia, e desejou até que conseguisse acreditar que na verdade era só isso que havia acontecido, era Ana ao seu lado, não havia brigado, não havia saído, não havia se embebedado com o Thadeu com TH, e “ai minha cabeça”...
.Então apalpou o lado de Ana em sua cama, apalpou o lado que Ana costumava se deitar nessa cama que já era dela também, nada... Tinha um vão do seu lado direito. O que a fez concluir que ELA dormira do lado em que Ana se deita. Então suspirou, tomou coragem e abriu os olhos.
.Estava lá, ombros largos, peito nu, forte, branco, porte atlético, de calça jeans, olhos verdes, boca carnuda, lindo de morrer e à sua frente. Assustou-se.
.- Desculpa, Felipa, eu não queria te acordar, já havia escrito um bilhete, estava só terminando de me vestir e já ia sair.
.- Eu não... Não te falei meu nome certo, não sabia que ia dormir com você. – falou isso em tom de autocrítica, rindo da situação embaraçosa que ela mesma se colocara. – Eu me chamo Renata.
.- Eu me chamo Thadeu, caso não se lembre.
.- Sim, Thadeu com TH, eu lembro.
.- Olha, quando eu sair, tem um bilhete pra você ali na escrivaninha. E uma ligação de uma tal de Ana no seu celular.
.- Você atendeu? – perguntou num tom que misturava susto a nervosismo.
.- Não, claro que não, mas logo em seguida chegou uma mensagem.
.- Você leu?
.- Sim, desculpa.
.- O que dizia?
.- É pequena a mensagem. Só diz: “Eu tenho meu dia pra você. Eu te amo.”
.Ela se sentou na cama, dobrou as pernas e apoiou o rosto em sua mão, pois mal conseguia se segurar. Tanta reação por dentro. Ele era o que ela ingerira noite passada, aquela noite toda, era também a vodka que tomara, estava tudo lá dentro dela, ele ainda estava dentro dela, o sexo dele, o sobrenome, o tempo, o signo, os parentes, todos os lugares, sons, imagens e corpos dessa noite reagiam uns com os outros dentro dela agora... Além da dor de cabeça, e essa, ah como doía. Ele se vestiu.
.- Eu desejo com a intensidade da minha dor de cabeça que o seu dia seja ótimo e que minha dor de cabeça não passe pra você. Eu to indo Felipa... Eh Renata. – riu-se por já ter se acostumado com o nome que ela fingia ter.
.- Eu desejo que a sua dor de cabeça passe tão rápido quanto desejo que a minha acabe nesse instante, Thadeu.
.- A noite foi ótima, Renata.
.- Tenha um bom dia. – sorria com aquele mesmo sorriso que conquistou ele noite passada quando a viu bem de perto na boate.
.Ela se levantou para trancar a porta e se deu conta de estar nua, como ele já havia saído não ligou, trancou a porta, sentiu toda aquela reação dentro dela. Acupuntura, sonhos, trabalho, o sexo. Correu pro banheiro e se ajoelhou no azulejo frio, se apoiou no vaso segurou o cabelo e vomitou. Pensou:
.- O organismo logo reconhece o que lhe faz mal. E rejeita, rejeita.
.E como sentisse que Ana era parte de si, como sentisse que ainda a queria e que era recíproco, como sentisse que tudo o que acontecera (o TH, o gozo, a vodka, arte, galerias, filmes, gemidos, espermas, penetração, traição), como sentisse que tudo que acontecera era o que havia ingerido, era tudo dentro dela e era o que ela havia acabado de jogar fora, resolveu esquecer. Porque o que fazia mal a ela, fazia mal a Ana, e aquilo era tudo que já não estava nela. Tomou um banho, se vestiu, se maquiou café, cigarros, bala, carteira, hoje o dia de Ana era seu. E isso era só o que importava.


Obs: Não prometo fazer textos menores.
Obs2: Texto do mês 6.

25 comentários:

Conde Vlad Drakuléa disse...

Texto, profundo, belo, espetacular!!!
"Porque se magoando magoaria Ana que já era parte dela. Então continuou a lembrar: Tomou um banho, um longo e renovador banho, se vestiu e saiu. Seu corpo era de tamanha beleza que mesmo com jeans e regata estava bonita, nada precisava para realçar sua beleza, nada precisava para que notassem ela estar lá, apenas estar."
Profundo. Imaginei tu andando de jeans e regata! Espetáculo de texto, genial ^^

Beijos queridos do conde!

Nadezhda disse...

Queria poder colocar pra fora com tanta facilidade assim as coisas que não são minhas de verdade.

;)

Robin K disse...

Queria tanto ter para mim um dia inteiro da "Ana"...

Paola disse...

nossa, namorar a distância deve ser muito difícil mesmo :~
mas saiba que eu vou estar torçendo por você tbm.

sandinista07 disse...

Desnorteia o leitor desse jeito Adrielly. Talvez mostrando que todos somos comuns e apáticos, talvez nos lembrando que somos todos labirintos de carne, veias e ossos, nos lembrando de nossas Anas.

Agora sou eu que quero me embebedar de vodka e sentir por dentro toda a ânsia de ser um ser comum, mas acordar podendo ter um dia de Ana comigo. Obrigado Adrielly.

Você me faz sorrir, você me faz feliz. Paz e amor, hoje e sempre.

Heitor disse...

Caraca,
não sei, mas a Ana e a Renata me lembram pessoas conhecidas!!!
hehehehehehe
Você, como sempre, se superando, né Dellyne?
Eu amei o texto...
axei complexo, porém sutil
e adoro a forma como você descreve as expressões e as ações dos personagens!!!
Quando você tiver um livro, eu exijo que o prefácio seja meu!!!
hehehehe
Bjooo
Ass.: Heitor

Rayanna. disse...

tempo..

Salsa disse...

Esse tipo de texto sempre exige uma segunda e calma leitura, mas agora o tempo está me atropelando.Depois eu lerei com a devida atenção.
Abraços,

Nina Vieira disse...

Bem escrito. Mas magoa e vodka sao duas pessimas combinaçoes. E o resultado eh sempre lamentavel.

JAMES PIZARRO disse...

Bravo !!!

Bj

James

Cris disse...

amo tudo isso aqui!

*aproveitando pra fazer "merchan" do meu novo cantinho: Fuzuê.
Dê uma passadinha por lá.

besos

Nataliinha disse...

Texto maravilhoso .
Ai, adoreii .
Eu me embriagava agora, nesse exato momento sabia ?
Falta a coragem.
Sim, sou covarde demais.

Enfim.
Achei aqui. E gostei.

Qd quiser, portas abertas.

Beijos =)

Mary West disse...

Todo mundo jah passou por uma situação parecida. Talvez trocando a bebida. Hahaha. Belo texto. Profundo texto.

bárbara disse...

Obrigada, Adri :)

Adoro ler teu blog! Sempre dou uma passadinha aqui.

Beijão :*

Dani disse...

Que profuundoo, eu queria ter uma criatividade assim por alguns tempos ^^

Mayana Carvalho.♥ disse...

Deuma profundida intensa, esse seu texto!
"Porque se magoando magoaria Ana que já era parte dela."
P E R F E I T O !

Beijos

Candy disse...

Menina!
se eu disse que essa história todinha me é muito familiar?!
só muda os nomes dos personagens!!!!
*não foi cmg que aconteceu.
**pra que textos menores?!

:**
Boa semana!

Carol disse...

Dêh!

A cada dia que passa suas palavras ficam melhores de serem lidas!

Adoorooo ler seus textos, como adoro tudoo em vc!
xDD

Beijão

Dani disse...

É, é otimo escrever como terapia, como arte.. Como você disse, mas as vezes isso se torna um desafio!

Layse disse...

Eu gostei muito desse, especialmente! tenho tentado pensar, e pensar... acabei sumindo por isso. Mas foi um ótimo retorno, abrir seu blog e deparar-me com esse texto! ;) vc escreve muitooo! publicar algum livro com seus textos, vcê nunca pensou nisso não, menina? Eu compraria um, definitivamente! ;D

meus instantes e momentos disse...

aumente os textos, é muito bom te ler.
Maurizio.
* ótimo esse post, muito bom.

Candy disse...

Pois é, e como separar amor e loucura, né?
;)

Maria Clarinda disse...

Voltei...reli o texto e cada vez gosto mais do que escreves.
Beijinho de parabéns

Moni disse...

oiii... como vc sabe expressar bem heim??? adorei! beijos

. disse...

Preciso saber mais sobre a Ana.

intenso o texto.
me lembro algo de minha história.

estou tentando enfrentar meus próprios demônios...

;)