terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sobre SER Destruição.

O post a seguir é extenso. Portanto, prepare-se, respire.
(Gente saindo do blogue em 3, 2, 1. )


Sobre SER Destruição.

Era todo perfeito, chamava-o de príncipe.
Os cabelos negros do príncipe lembravam noites que foram para o outro tão dolorosas, os olhos verdes com amarelo do príncipe que faziam o outro lembrar daqueles sonhos tolos de ter um jardim só com girassóis em Paquetá, mãos macias de nobreza, corpo bonito que parecia de um cavaleiro nobre e era o melhor de todos que já haviam passado na vida do outro.

De todos aqueles que por acaso, ou não, passaram na vida do outro, o príncipe era o melhor. O único que o outro quisera pôr no colo e cuidar pra sempre, deixar chorar, deixar falar, deixar dormir soluçando no seu colo, no seu ombro, sentir sua respiração. Era um príncipe por que era tudo que alguém podia desejar e isso irrita, sabe? Como pode alguém ser tão desejável?

Era educado, gentil, tratava bem os pais que viviam tentando arranjar uma namorada à altura pra ele, filho único mas não era mimado, todo perfeitinho mas nada arrogante, inteligente, culto e gostava de Ben Harper. Sabia até surfar.

Era lindo ver ele dançando naquelas festas, bebendo com os amigos e ele sabia beber socialmente. Como podia ser tão perfeito? Era tão bonito e sua companhia tão gostosa que conquistava as pessoas ao seu redor em, no máximo, vinte minutos. Em vinte minutos ele estava rodeado de garotas e caras querendo ele das mais variadas formas possíveis.

E o outro, o outro se orgulhava de estar com o príncipe, de todos ficarem ao lado do príncipe querendo, porque querendo ele, e o príncipe sendo só seu, prometendo naqueles olhos verdes com amarelo que no fim da noite seria só seu e que no fim da vida estariam em um jardim só com girassóis em Paquetá.

Mas o outro não vai ficar pra esperar os jardins e girassóis de Paquetá, ele vai embora. Não queria ir embora, não queria mesmo, mas sabia que o príncipe não estava preparado para este furacão que ele era. Já havia deixado a vida de muitos outros homens de cabeça pra baixo, levado e destruído muita coisa da vida daqueles homens másculos e lindos. Se destruíra a vida de homens fortes e másculos, o que não faria com a vida daquele príncipe todo menino? Era um menino ainda, tinha tanta coisa pra fazer tanta coisa pra conquistar, tanta coisa pra aprender sobre o amor e sobre essa coisa estranha e que as pessoas têm asco só de pensar.

Quando chegaram em casa, o outro pegou um whisky, duas pedras de gelo, ofereceu, o príncipe disse que não. Estava tão lindo, tão desejável e tão feliz, que o outro gaguejava e tomava cada vez mais doses. O príncipe ligou o som, tocava Waiting For You do Ben Harper que ele tanto gostava, e ele foi tirando a roupa, deixando pelo chão, se aproximando cada vez mais do outro. Um beijo.

O Outro: Não faz isso.
Príncipe: O que foi?
O outro: Você sabe que eu quero conversar.
Príncipe: Não podemos conversar e fazer outras coisas ao mesmo tempo?
O Outro: eu vou embora, príncipe.
Príncipe: você já está na sua casa.
O Outro: eu vou sair daqui, ir embora da nossa casa.
Príncipe: não me deixa, não faz isso.
O outro: Eu queria ser uma brisa leve na vida das pessoas, porque eu cansei de ser tornado que passa destruindo tudo pela frente, que deixa destruído tudo pelo caminho.
Príncipe: Mas a gente pode ser os dois.
O Outro: não fala nada, me deixa falar?
Príncipe: não! Eu não vou te deixar falar. Eu não quero deixar que você me convença que é melhor te deixar ir, não quero que você me diga desculpas banais com as quais, quem sabe, eu até possa concordar, não vou te ouvir.

(O outro então começou a gritar. O príncipe a andar pela casa pra ficar longe do outro, sair de perto, não ouvir, e o outro ia atrás dele, em todos os cômodos, mas nem precisava tão alto que falava. )

Outro: Vem aqui ,vamos conversar! –gritava enquanto andava atrás do príncipe.

Por fim, o príncipe cansou da fuga, sentou, e escutou ele dizer tudo que queria.

O Outro: Eu vou embora! Vou sair por aquela porta e você vai ficar aí, sentado me vendo ir. Você é, sim, como eu já disse, a coisa mais surpreendente que me aconteceu em todos esses anos, você me trouxe de volta a luz depois de todos esses anos de escuridão. Você me trouxe abraço apertado, beijo com paixão, frases que doem quando a gente escuta olhando nos olhos, pêlos que arrepiam quando as mãos passam nas costas, você me trouxe o seu amor. E o seu amor é a coisa mais bonita e sincera que podia ter me acontecido nesse momento, mas eu sou um bosta, cara. eu vou destruir a tua vida, você entende? porque é isso que eu faço na vida das pessoas, é isso que eu causo nas pessoas. você sabe, você conhece a minha história, eu venho cortando o coração das pessoas, destruindo os sentimentos bons que elas tem por mim. não sei que necessidade é essa que eu tenho de ser odiado, de não ser tocado no fundo, de não ser afetado. recuso ainda qualquer tipo de aproximação, principalmente a sua. eu não quero fazer mal à você, meu querido, mas eu podia. podia mostrar pra você toda dor que se pode sentir numa relação tão suja e condenada por todo mundo à sua volta. todos à minha volta já estão acostumados com a minha sujeira mas o que os seus pais diriam se soubessem que bixinha que você é? não foi pra isso que eles te criaram, não é meu príncipe. olha, você é educado, é bonito, é gentil, é desejado, você não precisa sofrer por mim. você é tão bem resolvido e é tão procurado que não precisa sofrer, nem deixar eu causar tanto sofrimento, que eu sei que sou capaz e sei que, com o tempo, vai ser inevitável causar tanto dor em você, querido. vai príncipe, deixa teu pai arrumar uma princesa pra você, já que você diz que eu sou o teu único homem, que serei o único homem em sua vida, que se não for comigo não há de ser com mais nenhum, deixa ele te arrumar uma menina, uma menininha daquelas que vivem de unha feita, pintadas de vermelho, que só usam sandalhinhas, que demoram duas horas para escolher um vestido para a festa de aniversário da tua prima, que não beba, que não ria descontroladamente de alguma piada, que não seja desajeitado e meio torto, que seja fina, que saiba comer com quatrocentos e cinquenta talheres em cima da mesa, que saiba começar de fora para dentro, comer escargot, apreciar aquelas ovas de peixe que você gosta, aquelas meninas que vão passar um dia todo procurando teu presente de aniversário de namoro, que você terá prazer em apresentar pros amigos, pros seus pais. Que seja o contrário de mim, sabe? que não me lembre em nada, nada mesmo, que não saiba jogar com você, que não te leve pra tomar sorvete aos domingos, que não tenha pés quentes iguais os nossos. Eu sou todo torto, eu compro teus presentes por internet na data errada e acabam sempre chegando dois dias depois das datas mais importantes pra você,eu não sei dizer qual é o seu livro preferido, a sua banda preferida, o seu beatle preferido, você gosta de beatles?
Olha, e tem mais, os seus amigos, eles não gostam de bixinhas não viu, tome cuidado, eu não faço idéia do quanto doeria pra você ficar sem eles, porque faz tempo não sofro quase nada. Mas ando sentindo um aperto, um angústia que parece fome, mas quando vou comer não desce nada. eu não sei o que é isso. ando sentindo isso depois que pensei em ir embora, senti enquanto preparava o que falar e to sentindo agora ao te dizer tudo isso, uma coisa estranha que parece que vai esmagar meu estomago, parece que eu não consigo respirar sabe? quando eu penso que você é a melhor coisa que já me aconteceu e que eu tenho que te deixar antes de destruir tudo de lindo que tem em você, quando eu penso que minha escolha não é destruir você e assim consequentemente te causar muita dor, mas sim, deixar você lindo, bonito e inteiro pra cuidar de outra pessoa, meu ar some, eu fico sem ar, querendo muito respirar por uns vinte segundos e quando consigo, meu peito tem um trabalho grande demais pra segurar tanto ar que dói, tudo anda doendo e eu não sei o que é isso, só sei que isso veio com a felicidade insuportável que você me trouxe. acho que o medo de ficar sem você e essa felicidade que você me traz, me fez sentir essa angústia desde o começo, acho que deixar você anda tomando meu ar, príncipe.. Mas eu preciso fazer isso antes de destruir a sua vida como fiz com a de muitos outros. eu vou embora príncipe, me desculpa, mas eu vou embora. Guarde nos seus olhos essas promessas lindas que me entregas todos os dias e quem sabe um dia eu volto. Volto pra ser brisa no nosso jardim só de girassóis em Paquetá.

12 comentários:

Raíza Sousa disse...

Nossa que liiiindo!
E quem é que nunca se sentiu um furacão na vida de outro?
E também quem é que nunca quis um jardim de girassóis só pra si?

*_*

=*

Carol disse...

Preciso dizer que eu adoro teus textos e que tu (na minha humilde opinião) é a melhor escritora?
HAHAHA xD

beijoo Dri .. tu é a melhor!
*-*

Junkie Careta disse...

Devo dizer que às vezes me espanto com nossa semelhança de afinidades estilísticas baby.Por acaso, estou em um texto que é uma certa mistura de prosa e crônica,e, de certa forma, esteticamente parecido com o seu.Naturalmente sem esse seu talento de constranger, de dar socos no estômago e, de arrancar um silêncio desconcertante e embaraçoso,parecido com um soluço,como naquela canção,legítima filha bastarda de Caio que vc é.

Esteticamente transgressora , como sempre.Muitas vezes passo por aqui,quero deixar comentários e não deixo, por culpa da maldita pressa capitalista que te obriga a cumprir prazos o tempo todo, metas, essas coisas na maioria das vezes muito chatas.Acho que se não fosse a música, eu enlouqueceria.Me recuso a fazer leitura superficial dos textos dos amigos que admiro como escritores,como vc, que penso ser uum dos maiores talentos da blogesfera.

Prazer, Tornado.

Olhando pra trás,sinto vergonha do tanto de destruição que deixei pelo caminho, especialmente as consentidas,embora,tenha um pequeno orgulho de ter sido algum vendaval necessário em alguns momentos.Mas, o tempo nos ensina a dosar nossos fenômenos naturais.Pelo menos, deveria.

O seu "outro" é tão profundamente humano, que provavelmente vai continuar sua saga de hurricane por onde passar, nesse mundo de gente uniforme, tão igual e sem originalidade.Absolutamente envolvente como personagem, instigante como literatura.

Quanto a ser doce quando se sangra, é a prova cabal de que vc é artista.

Quanto a escrever...

Já entendi esse movimento,essa dinâmica interna e aprendi a respeitá-la.É exatamente como dizia aquele grande medium "o telefone toca de lá,para cá".Não tenho nenhum domínio sobre isso.Vem quando quer, na hora que quer,normalmente quando não há mais saída, não há mais espaço. O que posso te dizer é o que já disse antes: já meti o dedo na garganta e já da pra ver a proximidade do espasmo, ou, mais poeticamente, estou meio grávido,escrevendo 6 textos ao mesmo tempo, que desconfio que na realidade é um 1 só e já não há espaço na placenta, a bolsa tá estourando.O rebento tá a caminho.

Que bom saber que há algumas pessoas como vc que tem algum interesse pra que ele venha.

Cada vez mais admirador de seu talento

Junkie Careta

Nicole f disse...

"Volto pra ser brisa no nosso jardim só de girassóis em Paquetá. "

tomara que o meu príncipe volte também *-*

eu tenho uma tese: escritor de verdade é aquele que consegue escrever algo grande, sem desprender a atenção do leitor.
BINGO! você consegue.

sua fã :*

Etienne disse...

vc escreve divinamente bem...
seus textos são viciantes
:D
virei aqui um zilhãode vzs

Carolina Cadima disse...

Os olhos do jardim só de girassóis em Paquetá são seus...

Adorei o texto...voc~e disse que era muito extenso, não percebi...li tão encantada que não percebi a extensão.

é sempre triste ser o que destrói, mas acho que todos nós somos um pouco assim, principalemnte quando não fazemos parte da nobreza.


Beijão Dellyne
como sempre.
lindas palavras.

Nina Vieira disse...

Sou destruidora também - das vidas e amores alheios que passaram por mim.
entretanto, sempre deixei marcas em príncipes diversos.
Como recompensa, guardo minhas cicatrizes.
Beijos.

Lucas D'Erasmo disse...

É impossivel passar e não te elogiar.
Mais vejo tantos elogios bem feitos aqui pelos outros necessitados hahaa, que não vou me atrever a dizer alguns elogios e talvez minimizar a grandeza dos seus texos.
Você deve ser um furacão, uma brisa, uma mulher apaixonante.
Parabéns de novo

Jaqueliny Euzébio disse...

Era longo? nem percebi
Cheguei no final com aquele gosto de quero mais que faz a gente voltar no começo do texto e reler tudo de novo, para ver se cessa.

A-D-O-R-E-I!
Adoro suas palavras, a maneira como você escreve... Simplesmente muito bom.
:D

Stephanie Pereira disse...

existem poucos escritores das quais eu termino de ler um texto e fico: "puts, porque não tive a idéia de escrever esse texto antes?" Adrielly, você me comoveu. Ganhou uma fã aqui (:

Tiago disse...

vou te poupar de mais elogios, mas me responda:

o que será que acontece quando dois furações se encontram?

Lu Morena disse...

angústia.