segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sobre Mãe e Filha .

O rádio relógio despertaria daqui a três horas. Mais uma jornada de 13h fora de casa. De que importava? Eram 02h30minh da manha e nada do sono vir. Pensou em ligar pra Maria (que há muito não chamava de mãe, que há muito não a chamava de filha e sim de Lara), fazia tanto tempo que não se falavam. Queria dizer que São Paulo estava uma loucura nessa época, que demorava uma hora, às vezes até uma hora e meia para chegar ao trabalho, que o emprego era bom, que semana passada pegou o autógrafo do Lima Duarte pra ela. Queria tanto dizer que era um pouco infeliz... que entendia que a mãe também fosse infeliz, mas só entendia agora, então pediria desculpas pelas besteiras que tantas vezes havia falado em tons tão alterados e então, com vergonha, perguntaria sobre o irmão para mudar de assunto ( demonstrar fraquezas não era uma coisa recorrente entre elas, nem fraquezas, nem sentimentos, nem arrependimentos, por isso nenhuma das duas dava o braço a torcer de orgulhosas que eram, de teimosas que eram) vai ser pai?, não vai?, menino?, menina?, diria que está ficando velha e ainda não aprendeu como viver. Se fosse ligar não podia esquecer-se de dizer que está com saudade da comida da mãe, era uma coisa que ela sempre dizia, mas nem precisava, bastaria passar três dias com a mãe que iria repor os quilos que a correria de São Paulo lhe tirava.
Pensou em acordar a mãe as quase 3h da manha, só pra que ficasse sensibilizada com ela, para que, acordada no meio da madrugada, fosse mais sensível e quem sabe pensasse: essa menina está infeliz, sem que ela mesmo precisasse dizer. Queria que percebessem mesmo que nada pudessem fazer, mesmo que nada quisessem fazer. A sua vida inteira pensou que sua mãe quisesse que ela fosse infeliz até começar a amadurecer, aí mudou de idéia e isso era uma das coisas que queria, porque queria, contar pra ela o quanto antes... Ou seja, nesse telefonema.
Queria dizer que “mãe, apesar de nos falarmos mais por telefone que pessoalmente, queria dizer que eu sei que você não queria que eu fosse infeliz, embora tenha se afastado no momento em que eu fui mais feliz. Eu sei que talvez você tivesse previsto que depois as coisas fossem piorar, mas eu pensei que fosse despeito, você não concordava que eu pudesse ser feliz daquele jeito, mas eu fui. Você me fez duvidar e me faz duvidar até hoje, e talvez só pelo fato de eu duvidar eu não seja feliz, não mãe, não quero colocar nenhuma culpa em você não me entenda mal.”
Queria dizer que deviam participar mais uma da vida da outra, quem sabe uma ensinasse a outra a ser feliz de diferentes maneiras?
E quando foi pegar o telefone se lembrou que havia tido uma última briga terrível com a mãe há quase dois meses atrás, a mãe não amoleceu dessa vez. E depois da briga até que ela tentou pedir desculpas à mãe, mas a mãe tinha aquela capacidade de afetar as pessoas com a indiferença que alguém só pode mesmo ter nascido com isso. Veio do tataravô, para o bisavô, para o pai, para Maria e depois aí parou, porque Lara não sabia como ser indiferente às pessoas e nem gostava desse sentimentozinho que ela não sabia como revidar. E Maria e Lara se feriam tanto como se ferem dois galos de briga.
E foi aí que Lara desistiu, desistiu de ligar porque um dia a mãe não a afetaria mais, se era sair da vida dela (assim à francesa) que ela queria, assim ela iria. Lara fingia não ligar, mas no fundo [no raso, bem raso] ela ligava.
Mas estava em São Paulo agora e São Paulo endurece as pessoas e estava endurecendo ela assim como endureceu sua mãe e milhões de outras Maria's e Renata's e Viviane's e Lara's que por ali passavam. E no fim sabia que era só mais uma coisa para Maria ver nela como “herdado”, mais uma semelhança entre elas. Porque Maria havia morado em São Paulo. E porque o ar que por muito tempo não deixou que Maria dissesse a sua filha a falta que ela faz é o mesmo ar que Lara agora respira durante as 13h as quais ela fica fora de sua casa.


Obs: O Blog está em processo de metamorfose. Não sei se continuará com essa roupagem.

17 comentários:

Nadezhda disse...

Acho que esse "ar" não é assim só neste lugar.

;)

Carol disse...

Eu vi Maria e Lara como definições precisas da Dellyne que eu conheço!
Dakele misto de mega romantismo meloso com uma certa dureza que a protege!

Amei o texto!
Te amo tbm!

Beijão

Nina Vieira disse...

Mãe e filha, contradições, oposição, geraçoes.
Vc respondeu o meme direitinho, obrigada!
Beijos moça.

Mayana Carvalho disse...

eu adorei o texto... lindo e mostra um relaçam em aspectos, entre mae e filha maravilhosa;

Beijos

Fern. disse...

Ah sim, pra ti, o canto de nota abafada, gemida, e o canto explícito, jamais escondido.
Teu blog tb foi indicado ao Top Blog? Que legal!Eu ainda nem peguei meu selo...=P

Beijooo!

Gustavo P. Fonseca disse...

oie. valeu pela visita no Barril de Ideias. Volte sempre.

Moni disse...

mae e filha, sempre serão mae e filha não importa como nem quando! bjksssss

Ness Forest disse...

Lindo Texto :)

- lorraine Trindade. disse...

opa, claro a gente pode combinar de tomar umas e a gente conta a nossa historia e voce nos conta a de voces! ;)
me add no orkut e a gente se fala por la que por aqui, eu nem entro! rs
tem nos meus link da uma olhada :)
bjobjo

Juliana Mendes disse...

É aquela coisa...
Você escolhe o que respirar...
Você escolhe no que acreditar...
Se ela não ligou pra mãe, foi por medo, receio, insegurança, falta de coragem...

Achei o texto meio tristinho =/
mas fala sobre uma verdade, incontestavel!
"é preciso amar, as pessoas como se não ouvesse o amanhã"

Anna disse...

Muito bonito, ainda que seja triste.
beijos

Maria Clarinda disse...

Com esta ou outra roupagem, são sempre belos os teus posts.
Nas entrelinhas consegui ver muita coisa...e sabes...como mãe, avó(eu sei que sou diferente de muitas...dizem), quero-te dizer que falamos, dizemos coisas que por vezes não deveríamos dizer, mas, o amor fala mais alto...e...mesmo vendo que algo não será eternamente duradoiro, que a felicidade poderá ser por pouco tempo, eu na parte que me toca tento ser feliz como mãe, como os meus filhos o são naquele momento.deixa que te deixe com as palavras da Suna Tamaro"Vai onde te leva o coração"...e nunca tenhas receio de telefonar...mesmo que do outro lado não recebas aquilo que gostarias...uma~mãe é sempre mãe!
Jinhos muitos de carinho.

. disse...

Ah!
Como os ouvidos e as bocas deveriam ser seladas para que o mal dizido não se propague.
Relações humanas.
Sinto cada letra e ponto...como se estivesse em um flashblack da vida.

Saudades desse seu espaço.

N. Mylonas disse...

Então vamos esperar essa mudança!

Beiijos

Robin K disse...

Estive muito longe. Deste blog, do meu próprio blog e até de mim mesmo. Mas a cada palavra que agora li, entendi o porquê de sentir saudades de te visitar.

Obrigado

Beijos

Layse disse...

Eu amei o texto. To meio sumida mesmo, né? correria de facul, casa, etc, etc. Mas, pelo menos, é bom vir aqui depois de algum tempo e ver que isso continua muuuito bom! ;)

. disse...

muito bom! :D